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sábado, 9 de abril de 2011

Após cem dias de Dilma no poder, oposição ainda busca discurso

No Senado, Aécio Neves faz discurso 
com críticas ao governo Dilma
Mais de cinco meses depois de ser derrotada nas urnas por Dilma Rousseff, que completa agora seus primeiros cem dias na Presidência, a oposição ainda demonstra dificuldades para encontrar um discurso e solucionar as suas divisões internas

"A oposição precisa ter uma estratégia comum, que ela agora não tem. Como ela não pode vencer votações, a saída é criar alguns constrangimentos para o governo e jogar para a plateia", diz o doutor em Ciência Política pela UFMG Carlos Ranulfo Melo.

Na eleição de outubro de 2010, os partidos de oposição viram suas bancadas se reduzirem tanto na Câmara dos Deputados como no Senado, ficando com apenas cerca de um terço das cadeiras em ambas as casas.

Já em seu primeiro grande teste político, em fevereiro, a base de apoio ao governo Dilma conseguiu impor, com votações expressivas, a aprovação do salário mínimo de R$ 545, tanto na Câmara como no Senado.

Na última quarta-feira, o senador e ex-governador de Minas Aécio Neves (PSDB) – apontado por analistas como uma das principais lideranças da oposição após a disputa eleitoral de 2010 – fez um discurso de cinco horas em plenário, criticando o governo Dilma.

No Senado, assistindo ao discurso, estava o ex-governador paulista e candidato derrotado do PSDB à Presidência, José Serra, citado por cientistas políticos como principal rival de Aécio Neves no PSDB na corrida ao Planalto em 2014.


"No PSDB, existem muitas lideranças disputando a hegemonia do partido, e elas se conflagram. Com isso, não se estabelece uma pauta comum", afirma o cientista político e professor da FGV Cláudio Couto.

"Serra tem a disputa com Aécio pela candidatura presidencial, mas também existe uma disputa em São Paulo entre ele e (o governador Geraldo) Alckmin, que voltou a ganhar importância", acrescenta Couto.

Kassab

Outro exemplo da divisão dos partidos opositores a Dilma foi a decisão do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, de se desfiliar do DEM e fundar o Partido Social Democrático (PSD).

O novo partido já ganhou a adesão de outros integrantes do DEM, como o ex-candidato a vice-presidente Índio da Costa, a senadora Kátia Abreu (TO) e o vice-governador de São Paulo, Guilherme Afif Domingos.

Para Cláudio Couto, o PSD surge como um partido sem ideologia clara e disposto a não participar da oposição, o que seria exemplo tanto de uma crise ideológica da oposição como de uma divisão dos partidos. "O PSDB não se une, e o DEM se esfacela", afirma.

O líder do PSDB no Senado, Alvaro Dias, nega que a saída de Kassab do DEM represente uma divisão dos partidos de oposição. O senador afirma que a relevância política deste fato ainda é desconhecida.

"Kassab não tem luz própria ainda, não tem visibilidade nacional", disse o senador à BBC Brasil. "(O PSD) não será um partido de conteúdo programático, não creio que seja capaz de empolgar alguém."

Em termos de propostas, Carlos Ranulfo Melo vê uma homogeneidade entre governo e oposição. O analista credita isso, em parte, a uma "crise ideológica da direita", que teve, segundo ele, seu espaço reduzido no cenário político.

"PSDB e PT disputam o centro do sistema partidário, disputam o mesmo lugar, separados apenas por algumas nuances: enquanto o PT é mais social, o PSDB aposta na eficiência."

"Lula roubou um pouco daquilo que seria o nicho preferencial da oposição, quando optou por manter a mesma política econômica de Fernando Henrique Cardoso", diz Cláudio Couto. "Sem este nicho específico, a oposição fica em uma 'sinuca de bico'."

Comunicação e desgaste

O líder do DEM na Câmara dos Deputados, Ronaldo Caiado (GO), vê na comunicação o grande problema da oposição. Para ele, é preciso que os políticos parem de "falar em códigos" e busquem o contato direto com a população.

"O eleitor está esperando de nós algo que seja mais palpável, que ele se sinta representado por nós nas ansiedades do dia-a-dia", afirmou Caiado à BBC Brasil.

Além disso, o deputado defende que a oposição construa uma militância forte, a exemplo do que fez o PT durante a sua trajetória quando estava fora do poder.

Por sua vez, Alvaro Dias aposta no desgaste dos três mandatos consecutivos do PT para que a oposição reconquiste o espaço perdido.

"Pode acontecer um cansaço natural, uma fadiga natural de quem está no poder já há oito anos, e que ficará mais quatro", afirma Dias.

"O modelo é realmente complicado de administrar, porque (a base de apoio de Dilma) é uma composição heterogênea e muito ampla. Certamente turbulências virão", diz o senador.


Rafael Spuldar
Da BBC Brasil em São Paulo 


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